Os Egípicos eram negros?

Muito provavelmente por conta da onda de filmes (geralmente não muito bons) e novelas (muitas vezes ainda piores) retratando o Antigo Egito, geralmente sem muita fidelidade histórica, há recentemente alguma atenção dada aos egípcios antigos. Na verdade há uma disputa: embora retratados com atores brancos, muitas vezes “nórdicos”, o Egito fica na África e, portanto, os egípcios deveriam ser negros, não? Muita gente Pan-Africanista diz que sim, bem como muita gente relacionada a alguma facção do Movimento Negro, também. Já não é bem o caso do que a antropologia e arqueologia, aliadas à genética, dizem. O que se segue é um longo “passeio” por estes campos e o que eles tem a dizer sobre o assunto. Antes que desanimem com o tamanho do texto, bem, tem IMAGENS, muitas imagens!

Aqui uma observação pertinente: isso que chamamos de “Egito Antigo” se trata de uma cultura/civilização que, além de jamais ter sido monolítica ou isolada, se estende no tempo por cerca de cinco milênios, o que deixa implícito enormes mudanças culturais, sociais, populacionais, genéticas, linguísticas, tecnológicas em sua trajetória. Além disso, na maior parte do tempo houve uma rigorosa estratificação social, marcada por diferenças brutais no estilo e qualidade de vida de seus integrantes e também deixando fortes marcas linguísticas e genéticas. Em muitos períodos é correto dizer que o grosso da população não correspondia à aristocracia ou à realeza. Ainda que relativamente longo, o texto não se pretende ser exaustivo acerca do assunto e não deixa de ser uma abordagem tangencial e por vezes superficial do tema.

A resposta rápida e simplista para a pergunta central é NÃO, eles não eram negros. Mas também não eram o que chamamos exatamente de “brancos”, principalmente o que se tem em mente como “branco europeu”, que os filmes americanos usam o nebuloso termo “caucasiano” para descrever. Para entender tais conclusões, sigam o texto.

O que é Negro?

As populações ao redor do globo apresentam distintas tonalidades de pele, tipos de cabelo, detalhes morfológicos (como detalhes da dentição, proporções cranianas, etc) e proporções entre tronco e membros, além de várias outras características fisiológicas peculiares. Diversas populações apresentam tons de pele bem escuros, a maioria delas a sul do Equador ou próximas a ele. Há etnias com pele bem escura, como os Drávidas da Índia, que costumam ser excluídas da classificação “negra”. O termo parece enfatizar determinadas etnias da África Sub-Saariana, em especial as populações ocidentais e centrais do continente. E, de fato, o que muitos querem dizer com a alegação de que “egípcios eram negros” é que eles pertenciam às mesmas etnias destas populações anteriormente mencionadas ou eram ao menos muito próximos delas. Então o retrato temático que se faz é “qual o vínculo dos egípcios antigos com as populações subsaarianas?”, e a investigação tentará abordar três vieses intimamente relacionados: a) a genética populacional; b) a linguística; c) as evidências materiais que sobreviveram à investigação arqueológica, bem como o que se pode supor, com diferentes graus de certeza, a partir delas.

Distribuição geográfica das famílias linguísticas atuais
Distribuição geográfica das famílias linguísticas atuais

A África apresenta ao menos quatro grandes grupos fenotípicos e culturais de negros. Os negros da porção ocidental e central do continente, falantes de idiomas pertencentes à grande família Níger-Congo, que eu simplificarei chamando-os de Bantu: é o que normalmente se imagina ao dizer a palavra “negro” aqui no Brasil, nos EUA e na Europa, porque a maioria dos escravos traficados para as Américas entre os séculos XVII e XIX eram provenientes desta região africana. Há as populações negras da região oriental (e parte da central) do continente, falantes de idiomas da grande família Nilo-Saariana ou, mais recentemente, Afroasiática, de idiomas: eles serão chamados simplesmente de Nilóticos e suas características típicas são pele muito escura, estatura elevada, membros longos, corpo esbelto. Há na porção austral do continente uma população pequena de caçadores-coletores (ou, mais recentemente, de pastores) falantes de um grupo muito antigo e curioso de idiomas, os Khoisan, de aparência “exótica” por apresentarem a prega palpebral típica das populações do extremo oriente, pele escura, estatura mediana e corpo esbelto. Além destes, espalhados em diminutos grupos pouco populosos no coração das grandes florestas tropicais, uma diversidade muito grande de populações que, salvo por algumas poucas palavras, já não falam mais seu idioma “original” e tem estatura muito baixa: são agrupados desordenadamente sob o nome de Pigmeus, vivendo em escravidão ou profunda dependência de seus vizinhos Bantu ou Nilóticos.  Família Níger-Congo

O estilo de vida tribal, que ainda predomina na África, mesmo que o encubram com os aparentes Estados modernos, faz prevalecer violência intergrupal constante e disputas étnicas no seio de cada um destes grupos e, com maior virulência, entre eles. Conforme as instituições tribais perdem poder e influência frente à organização dos Estados modernos, muita desta violência intergrupal cessa e, infelizmente, algumas vezes é substituída por agressividade inter-Estatal. De qualquer forma, há um tipo peculiar de violência particularmente comum em todo o mundo, em toda a história humana, que é a que ocorre nas fronteiras entre diferentes maneiras de organizar e utilizar o espaço e desenvolver a economia: em resumo, quando caçadores-coletores disputam espaço com agricultores e/ou com pastores e pastores com agricultores, a agressividade é enorme. E, como no restante do mundo, a história da África pode ser resumida na “visão global” destas disputas de modo de vida.

Como se observa no mapeamento dos grupos linguísticos africanos, a cultura das populações da costa ocidental do continente pôde se impor por uma grande área a sul do Saara e o “horizonte cultural” Bantu alcançou predominância em diversas áreas. Esta é uma conquista relativamente recente calcada em duas grandes vantagens: agricultura e domínio do ferro, que permitiu aos Bantu exterminar ou escravizar a maioria das populações autóctones de caçadores-coletores do continente e forçar seus sobreviventes a adotarem seu próprio estilo de vida, cultura e idioma, inserindo-os às margens da sociedade, ou a se refugiarem nas áreas mais inóspitas à agricultura.  Houve enorme resistência a este avanço na porção centro-oriental do continente, por conta dos Nilóticos, predominantemente adeptos do pastoreio. Várias regiões do continente observam ainda hoje disputas entre estes grupos e muitos dos piores massacres no século XX ocorreram na fronteira de contato entre estes horizontes culturais. Entretanto, em muitas regiões da África há uma sinergia, não uma disputa, entre o modo de vida típico dos Bantu com o dos Nilóticos, caminhando juntos para uma modernização conjunta.

Etnia Bantu e suas vestes tradicionais
Etnia Bantu e suas vestes tradicionais

Enquanto isso, caçadores-coletores como Pigmeus e Khoisan são cada vez mais empurrados para o esquecimento.

As origens da Agricultura

Voltando aos egípcios antigos, sabemos bem onde eles viveram e, aparentemente, o que foi discutido sobre os negros não lhes diz respeito. Isso bastaria como grande indício dos vínculos (inexistentes ou muito fracos) entre as populações subsaarianas e as populações do nordeste e norte da África. Sabemos da história, literalmente, dos documentos escritos, que o idioma egípcio é do ramo oriental da grande família Afroasiática, antigamente chamado de hamito-semítica. Sim, os egípcios falavam um idioma com filiação evolutiva ao árabe moderno, ao hebraico, aramaico, ao idioma dos seus rivais assírios, aos fenícios, etc. Bem como muitos idiomas das terras altas da Etiópica e Núbia, ainda que falados por populações de fenótipo nilótico, são Afroadiáticos, “parentes” do hebraico e do egípcio antigo, bem como do copta, entre outros idiomas famosos, em sua maioria, por não serem africanos.

A civilização egípcia é muito antiga, sua primeira dinastia data de 5,1kyr (= 5100 anos atrás), com a escrita surgindo ainda antes disso, no Pré-Dinástico Tardio, por volta de 5,5kyr. Os remanescentes humanos entre a população do Pré-Dinástico e da primeira dinastia são muito semelhantes, bem como parece ser o modo de vida da primeira dinastia uma continuidade do modo de vida do período anterior, de antes do Egito ser “o Egito”, como Estado. Analisando os objetos encontrados neste período, o padrão de cerâmica, tipo e forma de construção das habitações, quais vegetais eram cultivados e de qual forma, os animais cultivados, os minerais utilizados, etc, é possível relacioná-los às demais culturas contemporâneas. Há vínculos claros, indubitáveis, dos egípcios com as culturas do Levante (região onde hoje fica Palestina, Israel e a costa da Síria), noroeste da Mesopotâmia (onde hoje é a fronteira do Iraque, Síria e Turquia) e nordeste da Anatólia. Além disso, o lindo mineral azul usado para decoração e esculturas ou até para pigmentação, o Lápis-Lazúli, provém de onde hoje é o Afeganistão, indicando contatos indiretos com as civilizações do vale do Indus.

Nilóticos em vestes tradicionais
Nilóticos em vestes tradicionais

Os vegetais cultivados pelos egípcios eram ou autóctones, como o papiro, ou exóticos, como centeio e cevada, originalmente domesticados na região do Taurus e oeste do Planalto Iraniano. Mais tarde, quando passaram pastorear para obtenção de alimento e lã, os animais não eram de origem africana, como os ovicaprinos. Aliás, as culturas relacionadas à agricultura no “Crescente Fértil” são inter-relacionadas e descendem ou seus ancestrais mantiveram relações com os Natufianos, uma cultura com sítios arqueológicos distribuídos em partes do Levante e Anatólia que remonta a 14-8kyr. Na maioria dos casos, a agricultura tem pouco poder persuasivo, porque suas vantagens (que nos parecem óbvias) são rapidamente contrastadas por suas mais do que óbvias desvantagens: logo as populações agrícolas costumam descender dos fundadores, cuja taxa de natalidade é superior à dos caçadores-coletores, ou das populações por eles dominadas via atividade agressiva nas fronteiras entre agricultura e caça-e-coleta. Por isso, em relação ao Pré-Dinástico, percebe-se que sua formação se deu por um lento amálgama entre a cultura material autóctone do baixo vale do Nilo com a dos levantinos, cada vez com maior predominância dos elementos culturais “exóticos”.

Ainda depois das famosas pirâmides terem sido erguidas é que houve a explosão populacional dos agricultores da costa ocidental da África. O início da expansão dos Bantu no centro-sul do continente remonta a 3kyr. Estes agricultores abriam clareiras nas densas florestas tropicais ao redor de caudalosos rios e traziam consigo o sorgo e outros vegetais e animais típicos do ambiente tropical do qual provieram, desconhecendo inicialmente os clássicos cultivares do Crescente Fértil, do qual participava o Egito. Apenas por volta de 2kyr, em contatos com os pastores que alcançaram o lago Chade, na região central do continente, é que adotaram o pastoreio e a metalurgia do ferro, com a qual a tarefa de dominar as populações de caçadores-coletores se tornou fácil. A introdução do pastoreio de ovicaprinos no “Chifre da África”, na região do Mar Vermelho da Etiópia e Eritréia é de 5,5kyr (data curiosamente próxima da explosão populacional egípcia que mais tarde levaria à primeira dinastia) e não atravessou as margens do Nilo antes de 2,5kyr, restringindo-se à porção oriental da antiga Núbia.

Os exóticos Khoisan
Os exóticos Khoisan

Então, linguisticamente e materialmente, de acordo com as próprias atividades econômicas e proveniência de minérios e metais, o Egito Antigo não só não demonstra ter tido vínculos importantes com as culturas subsaarianas, como seu urbanismo predata significativamente a expansão agrícola dos Bantu, baseada em cultivares distintos, e a expansão da área de influência dos pastores das terras altas da Etiópia, muitos dos quais, hoje, falam idiomas marginalmente relacionados ao antigo egípcio (ou seja, da mesma família de idiomas Afroasiática).

De pai pra filho

Ancestrais passam seus genes aos descendentes, 50% dos genes de cada progenitor, no caso dos seres assexuados (e sem as bizarrices reprodutivas como a das abelhas e similares). Em especial, todo menino recebe de seu pai o mesmo cromossomo Y que este recebeu de seu avô e assim sucessivamente. Com o tempo ocorrem pequeno erros de replicação, ou seja, mutações, neste cromossomo e estes pequenos erros, geralmente muito pequenos e simples, podem ser “aninhados” para se determinar a linhagem paterna de qualquer homem. Enquanto não houver uma mutação, cada pai passa a seu filho o Y que recebeu. Havendo uma mutação, esta será repassada aos descendentes e assim sucessivamente. Cada linhagem paterna é chamada de “haplogrupo” e, quando tratamos do cromossomo Y, fica conveniente dizer “hg Y”. Os haplogrupos recebem nomes complexos de acordo com a sua linhagem, e quanto mais mutações forem rastreadas e especificadas, maior fica seu nome, até gerar coisas estranhas como “E1b1a7a”. De qualquer forma, o interessante aqui é que é possível entender qual a linhagem paterna de um homem (ou qualquer portador não-binário de um cromossomo Y).

Da mesma forma, cada um de nós e dos demais eucariontes possui uma importante organela indispensável ao metabolismo chamada mitocôndria. Embora haja algumas pequenas controvérsias a respeito, o entendimento geral é que cada ser vivo sexuado herda dos gametas femininos suas mitocôndrias. O interessante é que as mitocôndrias provavelmente se originaram de antigas bactérias invaginadas por uma célula ancestral e, por conta disso, ela tem seu próprio DNA, diferente do DNA do núcleo celular. E tal qual o DNA autossômico, este também pode sofrer pequenos erros de replicação, de tal forma que o DNA mitocondrial, doravante mtDNA, serve como um marcador “materno” da linhagem. Cada um de nós, meninos, meninas ou qualquer outra coisa não binária, até otherkin, recebe da mãe suas mitocôndrias, com seu devido mtDNA. E tal qual ocorre com os cromossomos Y, é possível estudar os haplotipos mitocondriais dos indivíduos e definir suas linhagens maternas.

Assim, como o DNA autossômico é muito grande e complexo, com várias regiões repletas de alelos concorrentes, é difícil, complicado e pouco eficiente tentar usar todo o DNA para estudar, de maneira simplificada, as linhagens. No entanto, é fácil usar hg Y e mtDNA para estudar as linhagens paterna e materna das pessoas e definir seu grau de parentesco. E, mais do que isso, a frequência com que os haplogrupos existem numa população, em comparação com as frequências de outra população, acabam por revelar o quanto elas são próximas e até estimar a quanto tempo elas mantém contato reprodutivo mais frequente. E, como cereja do bolo, iremos passar os olhos na distribuição atual de hg Y (e mencionar algo sobre mtDNA) das populações sub-saarianas atuais e compará-las com as (poucas) amostras obtidas de corpos do Egito Antigo. Procurem não se assustar com os nomes dos haplogrupos ou com a aparente complexidade de algumas imagens, pois é mais útil ver o que as diferentes populações tem em comum entre si.

Frequência de hg Y típicos nas populações africanas
Frequência de hg Y típicos nas populações africanas

Infelizmente, ao contrário do que muita gente gostaria, não há um vínculo unívoco entre idioma dominante e genética, posto que um russo hg Y R1a1 pode ensinar seu idioma materno a toda uma população africana hg Y E1b1a e esta, se mantiver seu uso, não mais assegurará seu marcador genético como falantes de idiomas Níger-Congo, mas Indo-Europeu. Entretanto, notadamente na África, há fortes correlações entre genética e grupo linguístico quando se trata de populações, como também se espera que a menor mobilidade geográfica e social do Neolítico e do início da Antinguidade mantivessem correlação mais forte entre grupo linguístico e hg Y (ou mtDNA, conforme o caso). A imagem a seguir apresenta a distribuição populacional de diversos hg Y em relação a grupos linguísticos presentes na Africa atualmente. A segunda parte do gráfico utiliza todos os dados pra agrupar quais hg Y melhor se correlacionam com os grupos populacionais. A idéia aqui é notar quais os hg Y típicos dos Bantu (e dos Nilóticos) para compará-los com o que se obteve das amostras do Antigo Egito.

A próxima tabela, obtida a partir dos dados de um artigo já meio antigo, explicita os hg Y obtidos de dezenas de amostras de épocas diferentes do Antigo Egito. Estão marcadas em amarelo os hg Y típicos do que hoje se encontra em populações sub-saarianas orientais (i.e. Nilóticas). Nota-se a contribuição dos grupos hg Y J2 e J, típicos do Oriente Médio, em especial das populações semitas e do grupo hg Y I, muitas vezes associadas aos caçadores-coletores da Anatólia e sudeste da Europa durante o Neolítico. Outros estudos, como Giacommo, 2004, resultam que a população do Antigo Egito tinha hg J em 23,4% das amostras e hg E3b, E ou A em 55% delas. Estudos mais recentes concluem que, com maior amostragem e tomadas amostras por maiores períodos de tempo, a distribuição de 75% do mtDNA do Antigo Egito era de origem euroasiática e 24% de origem sub-saariana nilótica, especificamente da população neolítica das terras altas do Sudão (Hassan, 2008).

frequência de haplogrupos Y do Egito Antigo
frequência de haplogrupos Y do Egito Antigo

Voltando à África

Há de se considerar, entretanto, que muitas populações do centro-leste da África, embora fenotipicamente nilóticas, possuem idioma e estilo de vida (pastoreio de fauna exótica) que não são africanos em sua origem. Isso indica influência de culturas não africanas em contato, presumivelmente recente, com tais populações. Populações nas quais, aliás, está presente o componente genético “sub-saariano” dos antigos egípcios. Já se mencionou que a arqueologia conhece bem como e quando se deu a introdução de ovicaprinos na África Oriental, então seria o caso de buscar evidências genéticas de reintrodução (i.e. migração) populacional da Eurásia na África, datá-la e apontar seus prováveis haplogrupos.

E, sim, há evidências que apontam para “back-migration” em maior escala (mais antigos) e sinais mais fortes, mais recentes, mas geograficamente limitados do mesmo fenômeno. Sabe-se, historicamente, que a conquista árabe do norte da África se deu nos séculos VII e VIII d.C., ainda que o gene especificamente eurasiático da permanência da lactase, que confere tolerância à lactose, está presente em populações do norte da África há 4kyr, enquanto há uma introdução genética massiva da Eurásia no nordeste da África datando de cerca de 3kyr. Num artigo de 2014, Hodgson sugere um evento de “back-migration” para a região do Chifre da África que data de 23kyr.

A maioria dos estudos genéticos com amostras da porção africana da orla mediterrânea resulta em maior afinidade genética (e de suas culturas materiais) com as populações do oeste da Eurásia do que com as populações sub-saarianas, havendo a proposição de 15kyr como a data de isolamento “definitivo” entre as populações neolíticas da Líbia e do Níger. Ainda que a região do Saara nem sempre tenha sido desértica (o que é relativamente recente), a vastidão de pradarias áridas, com pouca disponibilidade de água e de caça, constituía uma barreira física difícil de ser transposta por caçadores-coletores que não dispunham de cavalos e dromedários para cruzar aquela área. A análise de mtDNA comparativa entre as populações do norte da África e da porção sub-saariana indicam que os contatos são recentes, datando do tráfico escravista inaugurado pelos muçulmanos no século VII. Antes disso, sugere-se que as populações sub-saarianas não deixaram traços genéticos nos bérberes por 40000 anos. Tráfigo Escravista do século VII

Assim, ao que tudo indica, boa parte da contribuição genética “nilótica” ao povo do Egito Antigo pode ser explicada por migrações recentes da Eurásia para a África (como atestam as culturas materiais, idioma e modo de vida dos pastores falantes do grupo Afroasiático no leste africano) e que o Saara serviu como barreira física, dificultando ou interrompendo o contato das populações do norte da África com as da costa ocidental da África tropical. Do ponto de vista genético, as populações do Egito Antigo não mantiveram vínculos relevantes com as populações da África sub-saariana, em especial com os falantes do grupo Níger-Congo.

A arte imita a vida

Estatuária da dinastia núbia
Estatuária da dinastia núbia

Marcadores genéticos de linhagem paterna e materna são interessantes e úteis, mas dizem pouco acerca de características como a cor da pele. Ainda que haja alguma correlação entre alguns destes haplogrupos e características físicas, a cor da pele, tipo de cabelo e similares dependem de complexas interações do DNA autossômico, não contempladas nos mapeamentos de haplogrupos apresentados. Sabemos que a contribuição das populações sub-saarianas ao Egito são mínimas, se existentes, no entanto nada impede que a população “ancestral” do norte da África tivesse pele escura e aparência sub-saariana e que esta prevalecesse no Egito Antigo. É aqui que os refinados egípcios nos ajudam, com sua arte que, definitivamente, não representa o que se costuma ter em mente quando se diz “negro”.

Estatuária Egípcia É certo que nem sempre a arte egípcia prima pelo realismo, ela é bastante formalista e simbólica. Então, talvez aqueles traços fossem meramente idealizados e a cor ocre com que pintavam homens e amarelo-claro com que pintavam mulheres fosse simbólica. Seria uma pena se os egípcios não retratassem, também, as populações não egípcias, como os pastores núbios (com traços arredondados e cor inegavelmente mais escura) ou tributários bérberes, núbios, levantinos e egípcios rendendo homenagens ao Faraó. Eu camareiras aristocratas egípcias servindo à realeza núbia da XXV dinastia. Como se vê, apesar da representação formal e simbólica de muitos afrescos egípcios, determinadas características fenotípicas foram muito bem determinadas em seus vizinhos, mas não neles próprios. Ao que parece, os egípcios viam alguns povos como mais claros e outros como mais escuros e eles como diferentes de uns e de outros.

egípcios representando outras etnias
egípcios representando outras etnias

A estatuária, sarcófagos e máscaras funerárias marcam ainda melhor a aparência dos antigos egípcios e o tom de suas peles. Ou, ao menos, a aparência da aristocracia. Quando, por volta do séc. VIII a.C., o povo Kush da núbia dominou o Egito, o padrão da estatuária marcou bem o ocorrido, durante a XXV Dinastia. E as poucas peças “ultra-realistas” sobreviventes, como o busto propositalmente inacabado da rainha Nefertiti, da XVIII dinastia, revelam a aparência, ao menos idealizada, de sua realeza. Não é o que se espera de negros, principalmente no sentido de “semelhante às populações dominantes na África sub-saariana”. Tampouco se espera que alguém com a aparência da rainha Nefertiti fosse representativa de uma Valquíria do panteão nórdico. Felizmente as populações humanas não são, nem nunca foram, fáceis de se conformar no padrão míope de percepção étnica dos últimos dois ou três séculos.

Nefertiti E se te perguntarem se os egípcios eram negros, já há uma sugestão de resposta. Curioso que há quem se irrite com a inexatidão histórica da aparência dos egípcios na filmografia, mas ninguém parece ligar pra aberrações ainda maiores na metalurgia, uso da roda, de animais exóticos à África, na presença de frutas que só chegaram à região com os muçulmanos, etc. Espero que tenham gostado da viagem e aqui eu os deixo com as próprias indagações.

Para saber mais:

Livros:
Armas, Germes e Aço; Jared Diamond;
A Guerra Antes da Civilização; Lawrence H. Keeley;
Pandora’s Seeds; Spencer Wells;

Artigos:
Genomic Ancestry of North Africans Supports Back-to-Africa Migrations; Brenna et al, 2012; PLosONE;
Early Back-to-Africa Migration into the Horn of Africa; Hodgson 2014; PLoS Genetics;
West Eurasian Ancestry in Eastern and Southern Africa; Pickrell et al, 2014; PNAS;
Genome-Wide and Paternal Diversity Reveal a Recent Origin of Human Populations in North Africa; Fadhlaoui-Zid & Herber, 2013; PLosONE
Y-Chromosomal Variance in Sub-Saharan Africa: Insights into the History of Niger-Congo Groups; de Filippo et al, 2011; PubMed;
Bringing Together Linguistic and Genetic Evidence to test the Bantu Expansion; de Filippo et al, 2012; Proceedings of the Royal Society B;
Environmental Change and Archaeology: Lake Evolution and Human Occupation in the Eastern Sahara during tje Holocene; Hoelzmann et al, 2000; Palaeo;
History Hidden in Bones: Holocene Environmental Change in Northwestern Sudan; Nadja Pöllath, 2003; ACACIA Conference;
The Trans-Saharan Slave Trade: Clues from Interpolation Analyses and High-Resolution Characterization of Mitochondrial DNA Lineages; Harich et al, 2010; BMC;
A Back Migration from Asia to Sub-Saharan Africa Is Supported by High-Resolution Analysis of Human Y-Chromosome Haplotypes; Cruciani et al, 2002; Am. J. Hum. Genet;




 
   
 

 
   
  


    






 
   
 

 
   
  


    






 
   
 

 
   
  


    

 


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Do caos nasce a noite, e a noite é o melhor período do dia.